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Ouriquense

"Literatura desalojada"


Num regime do “acabado de sair”, que suspende a memória, a distância e a crítica, e em que a actualidade é produzida como um poderoso artefacto, uma escritora [Agustina] que deixou de publicar e de aparecer na televisão e nos jornais fica com a sua obra relegada para a condição de “fundos” — essa zona cada vez mais exígua e longínqua, graças a um presentismo triunfante em todos os domínios, incluindo no modo de edição, comercialização e divulgação dos livros. Para analisarmos devidamente a condição póstuma para que tende hoje a literatura, perceptível na aventura editorial da obra de Agustina e de outros escritores, temos de ter em conta também o facto de o ensino da literatura, que foi o instrumento privilegiado para reconhecer a continuidade com o passado e a cultura nacionais, já não ocupar hoje o mesmo lugar (não entremos no discurso sobre os malefícios de uma coisa a que alguns chamam “eduquês” e “falta de exigência” porque é tudo muito mais complicado e exige instrumentos de análise que não é a dos traficantes de ideologia pindérica). Houve uma redução do espaço da literatura na cultura global e, por conseguinte, também na escola. A formação global é hoje dominada pelos modelos propostos e impostos por outros regimes da comunicação e de socialização da cultura. Ora, grande parte da literatura que se vai escrevendo e publicando tenta abrir vias no mercado da comunicação, entrando no próprio jogo que a aniquila. E assim se deixa capturar pelo vórtice do ruído generalizado. Verifica-se que são os próprios escritores, muitos deles, a fazer tudo o que é necessário para tornar a literatura subalterna e não essencial. A lógica da publicidade e as quermesses literárias — em que se fala de muita coisa e quase nada de literatura -, justificadas por um proselitismo filisteu, mais não fazem do que subscrever a condição póstuma da literatura. Paradoxalmente, à restrição, retracção e marginalização do seu espaço, corresponde um aumento angustiante da quantidade de livros publicados. Encontramos cada vez mais tralha no caminho para os livros de Agustina. António GuerreiroPúblico