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Ouriquense

Adolfo rules

Expresso

As reacções negativas a esta entrevista a Adolfo Mesquita Nunes voltaram a ser escritas por pessoas bizarras. São pessoas que se esforçam por exibir enfado perante o tema, quando a rapidez e empenho com que o comentam é uma prova indesmentível do interesse e curiosidade que elas, como todos nós, temos por estas matérias. São também pessoas que denunciam um ressabiamento desconcertante: o ressabiamento do heterossexual amuado por não ter idêntica oportunidade de "brilhar" às custas da sua orientação sexual, o que só pode resultar de uma falta de empatia, falta de inteligência ou irritação perante as conquistas da agenda progressista.

Permitam-me uma revelação à Francisco Seixas da Costa, o embaixador que diariamente nos lembra que palitou acepipes com todos os eleitos da pátria. Antes da eremitagem, quando ainda tinha uma carreira na ciência, vivia na capital e fazia tangentes à blogosfera política, conheci o Adolfo Mesquita Nunes. Se tivesse de recorrer ao esquema de classificação de relações de Seixas da Costa, creio que seria abusivo descrever o Adolfo como um "amigo pessoal", mas guardo dele a melhor das impressões, coincidente com a sua imagem pública de homem frontal, competente, sensato e despachado. Se, há quase uma década, até eu estava a par da orientação sexual do Adolfo, concluo que não era segredo para ninguém. Por isso, creio que o Adolfo terá passado ao longo da sua vida por outras situações em que, a propósito da sua orientação sexual, foi muito mais corajoso do que na entrevista ao Expresso, mas o facto de ser apenas o segundo político a assumir-se como homossexual, depois de Graça Fonseca*, dá à entrevista uma importância óbvia, para mais sendo o Adolfo de um partido com raízes na democracia cristã, até há pouco nas mãos de um líder carismático que entendeu nunca falar sobre a sua vida privada. Ao contrário de Eduardo Pitta, não defendo que a "inscrição pública" da orientação sexual de "governantes, intelectuais, artistas e, grosso modo, formadores de opinião" seja um dever cívico, mas aplaudo-a com uma intensidade directamente proporcional ao seu grau de dificuldade. 

*Miguel Vale de Almeida não entra nestas contas, por nele estar trocada a ordem dos factores; assumiu-se como homossexual muito antes da sua breve passagem pela política activa.